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sábado, 13 de dezembro de 2014

pura ficção #4


Tudo começou quando nós acabamos. Já o tínhamos feito vezes sem conta, acho que era assim que mais gostávamos de celebrar o nosso amor. Entre dois lençóis, no chão da sala de tua casa, no teu carro estacionado atrás de minha. Onde desse, onde calhasse, onde mais nos desse prazer. 
Mas depois dissemos chega. Mentimos, mas dissemos. E foi então que tudo começou. A necessidade, a vontade, o desejo, o prazer insaciável de nos termos. De ter o sexo ardente que nos unia durante uma hora nos mesmos locais de sempre.
A tua mão que percorria o caminho entre os meus seios e o meu ponto de ebulição, o nosso ponto de fusão. As minhas unhas que te arranhavam as costas com o poder que me transmites enquanto me penetravas. 
Mas depois cada um de nós seguia a sua vida, saímos do prazer que nos inundava durante aqueles minutos, e seguíamos a nossa vida. Como se aquele momento nada significasse senão uma descarga de cansaço, dor e, no silêncio, amor.
Nunca mais nos dissemos que nos amávamos. Tu dizes que a amas quando estás com ela. Eu digo que o amo quando estou com ele. E no momento em que nos unimos, apenas o sussurro do meu nome no meu ouvido se ouve. Um sussurro que ecoa, mas que se cala na intensidade dos meus e dos teus gemidos. 
Quando nos encontramos por um acaso na rua e tu passeias de mão dada com ela, e me olhas enquanto o abraço, os nossos olhos dizem o que é preciso dizer "Logo, no sítio de sempre" e as nossas bocas calam as palavras proibidas. As palavras de quem quer dizer que ama, mas não pode. Porque não ama, ou quer esconder o amor! 
E eles nada sabem. Eles nada percebem. Continuam a amar-nos e a ter-nos como querem. Porque eu sei que fazes amor com ela e tu sabes que eu faço amor com ele.
Mas conto-te agora no silêncio deste momento em que nos entreolhamos que o que faço com ele é simples sexo, o sexo obrigatório de um relacionamento que não passa de uma fachada. Mas aquilo que faço contigo é amor, é sentimento que se transmite entre dois corpos suados, entre duas bocas incansáveis e famintas. Dizes não me querer ouvir dizer mais isto, mas continuas a ter o mesmo desejo pelo meu corpo, pela minha boca, pelas minhas palavras quando ainda dizíamos ser um casal.
Continuas a amar-me e eu calo-me, porque sei que é verdade. Porque sei que o amor é aquilo que nos leva a ter aquele sexo, aquele amor, aquela vontade de tocar cada centímetro dos nossos corpos, como se ninguém nos pudesse dar aquele entusiasmo da mesma forma como damos um ao outro.
E sei também que daqui a 10 anos continuaremos a fazê-lo, continuaremos a encontrar-nos atrás de minha casa ou no chão da tua sala, continuaremos a amar-nos e a desejar-nos, continuaremos a passar um pelo outro e dizer com os olhos "Amo-te mais quando fazemos sexo!".

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

pura ficção #3

"Existe um tempo para tudo. Era o que me costumavas dizer naquelas manhãs em que eu te batia à porta com a lágrima ao olho e te pedia, soluçando, que me ajudasses. Era só isso que te pedia. Isso e um abraço, daqueles que só um avô era capaz de dar. E tu davas. Davas e sorrias. Isso bastava.
Existe um tempo para tudo. Era o que me dirias hoje quando eu entrasse pela tua porta e te dissesse que não vou ser capaz de enfrentar a tua partida, que não vou ser capaz de passar pelo café, antes de ir para a escola, e não te ver lá para me dares um beijo e me dizeres 'Bom dia'. 
Existe um tempo para tudo. Existe um tempo para tudo. Existe um tempo para tudo. Existe um tempo para tudo. Existe...
Mas não agora. Agora quero apenas que o tempo não passe, que o chão desta casa não gele perante a tua ausência e que eu possa continuar deitada nele, enquanto te ouço contar as histórias de quando eras novo, de como conquistaste a avó, de como viste o pai correr pelos prados, das noites que passaste sozinho pela avó ter outros, das vezes em que só tu eras capaz de me acalmar... Quero que contes, avô. Quero que contes tudo, tantas e tantas vezes. Quero que estejas aqui, agora.
O pai não sai do quarto, a mãe saiu e ainda não voltou e a avó nem foi capaz de dizer nada. Tenho tanta pena que não tenhas sido feliz com ela. Mas eu sei, eu sei que foste feliz comigo. Naquelas tardes de inverno enquanto me ensinavas a jogar xadrez e me dizias que esse era um jogo de paciência e estratégia. Sabias que eu era péssima no jogo, eu também o sabia, mas deixavas-me ganhar para depois me poderes pagar o gelado que me tinhas prometido. Naquelas manhãs de verão que saíamos os dois, com o guarda-sol e a lancheira prontos para passar uma tarde no jardim de casa. Era a nossa praia: um jardim, uma manta, uma sandes e um livro. Eu amava esses dias!
Lembraste do livro da bisavó? Trouxe-o comigo até hoje, e até sempre. Tem o cheiro dela, e o teu, e o do pai e espero um dia ter o meu e o do meu filho. Terá, prometo.
Tenho tanta pena avô, que não estejas aqui. 
O chão da casa começou a gelar, mas eu não me importo. É onde me sinto melhor. 
O pai não deve saber onde estou e a mãe não deve ter tempo para pensar nisso. Eras o paizinho dela, sabias? Ela amava-te como um pai. Lembraste daquela vez em que a resgataste do rio com a ajuda do pai? Ela diz que foi nesse momento em que se apaixonou por vocês os dois. Era impossível tal não acontecer. Vocês são tão lindos.
Tenho medo avô. Tenho medo de um dia esquecer a tua cara, tenho medo de um dia não me lembrar da tua voz. Tenho medo de esquecer o teu abraço, o teu carinho, a tua presença. Tenho medo de um dia não saber distinguir o teu cheiro no meio da multidão. Tenho medo de te perder na multidão.
Ah, já me esquecia, o Doc está aqui ao meu lado. Se soubesses o quanto ele chora, o quanto ele se aninha em mim e me pede mimos. Ele está a tremer, não sei se de frio se de saudade. Talvez de tudo.
Nada disto faz sentido, avô. Ainda ontem estavas sentado naquela cadeira, que ainda balança, e me dizias que a vida é efémera, que devemos aproveitá-la e que tu tinhas aproveitado e querias aproveitar mais ainda a tua. 
A lareira apagou agora. Não me quero levantar e acendê-la de novo. Estou bem aqui deitada. O Doc enroscou-se um pouco mais e suspirou. Ele sente-se sozinho. Como eu o compreendo... É duro vermos partir alguém que tanto amamos, não é Doc? Os olhos dele perderam o brilho. Pergunto-me o que dirão os meus neste momento...
Tu dizias-me que os meus olhos eram os mais bonitos que alguma vez tinhas visto: a cor do mel nos dias de inverno, a cor do sol no verão. Sabias que temos os olhos iguais? 
Tu dizias-me que eu tinha um sorriso doce e meigo, que os meus beijos te deixavam arrepiado. Sabias que os teus tinham o mesmo efeito em mim?
Tu eras o homem perfeito que muitos não souberam preservar nas suas vidas. Sinto muito.
Ninguém da minha turma foi ao teu funeral. Penso que nenhum deles saberia o que dizer. Eu compreendo. Muitos deles adoravam-te. Eras o avô de muitos meninos. 
A mão já começou a falhar, a vista tornou-se novamente turva e sinto o corpo dormente. Custa tanto avô! Tu não merecias, o pai não merecia, a mãe não merecia. Eu não merecia. 
Existe um tempo para tudo. Espero que nunca o haja para te esquecer, para esquecer o teu toque, para esquecer as tuas histórias e ensinamentos. E avô, onde quer que estejas, lembra-te de nunca me esquecer. 
Ah, o pai pediu para te dizer que naquela noite em que o encontraste bêbado junto ao pessegueiro, que ouviu tudo. Que te ouviu dizer que o amavas e que não saberias viver sem ele. Eu lembro-me dessa história. Pediu que te respondesse com as palavras que eu te diria se estivesse bêbada encostada àquele pessegueiro. Eu primeiro disse-lhe que nunca me virias bêbada. Ele sorriu e disse que te tinha dito algo do género uns anos antes. 
Mas avô, se me encontrasses junto a um pessegueiro bêbada e me dissesses que me amavas e que não conseguirias viver sem mim, eu só te diria que sabia o que estavas a sentir. Que sei o que estavas a sentir. Que te amo, que não sei o dia de amanhã e que não faço ideia quando é que vou conseguir levantar-me deste chão e continuar a viver sem ti. Que a vida foi injusta para contigo muitas vezes, mas como tu próprio disseste, em três momentos te presenteou da melhor forma: quando o pai te agarrou o dedo com força de um herói pela primeira vez, quando agarraste a mão da mãe e a tiraste do rio com a força de um guerreiro e quando eu te abracei com a força de um anjo. Dizer-te-ia que a minha vida sem ti não faz sentido. 
Mas acabaria dizendo apenas que também te amo e que não saberia viver sem ti. E nessas palavras tu entenderias tudo, sorririas, pegarias em mim ao colo e deitar-me-ias na cama. Adormecerias na cadeira ao lado e esperarias que eu acordasse e dar-me-ias um sermão. Que eu não iria ouvir, mas iria recordar para sempre. Como daquela vez em subi a uma árvore e rasguei as calças novas. Sabias que o fiz porque me tinhas ensinado que deveríamos salvar os animais em apuros? Estava lá o Tico, o gato da vizinha. Mas quando lá cheguei a cima ele saltou para baixo. Ri-me como uma perdida naquele momento, porque me tinha esforçado tanto para realizar aquela tarefa. Não te rias de mim avô, mas eu achava que ele iria morrer ali em cima se ninguém o salvasse.
Eu tinha 7 anos e não sabia nada da vida. Apenas que te amava e que gostava de estar perto de ti e do Doc. Apenas que queria que fosses eterno. Pedi tantas vezes a Jesus que te fizesse eterno. Tenho pena que tal não tenha acontecido. Muita pena, avô!"

quinta-feira, 24 de julho de 2014

pura ficção! #2

Era dia 16 de abril de 2009 e eu finalmente tinha ganho coragem para te dizer o que sentia. "Tu não me és indiferente". Pensei que, ao termos ambos 17 anos, encararíamos a situação de uma outra forma, que não aquela como reagiste.
Saíste porta fora e nunca mais quiseste falar comigo, mandavas recados por outras pessoas dizendo que as coisas podiam ser diferentes, que podíamos ter continuado amigos. Tinhas razão, podíamos. Mas tu não soubeste lidar com os meus sentimentos A coisa mais preciosa que eu tinha esteve nas tuas mãos e tu derrubaste-a no chão, como uma pedra pequena que te entrou no sapato.
Ver-te diariamente não era fácil, cruzar-me contigo fazia com que a minha respiração ficasse sem ritmo. Mas o que aconteceu a seguir, destruiu-me completamente. Tu contaste-lhe, contaste à unica pessoa do mundo a quem não podias. Ele não podia saber e tu sabias o porquê! Ele usaria tudo isso contra mim, não contra ti e por isso tu decidiste dizer-lhe. Ele não hesitou em usar os meus sentimentos como arma de arremesso e tu nada fizeste, limitaste-te a ficar sentado como se de um espetáculo se tratasse.
O tempo foi passando e olhar-te era cada vez mais doloroso, mais penoso e mais doentio. Eras uma doença instalada no meu peito, na minha mente, nos meus olhos, na minha boca, na minha vida. 
Mas eis que o que eu mais temia, simplesmente aconteceu. Apaixonaste-te por ela. Ela por ti. Um pelo outro. Amavas-la, dizias tu. Não me importei, deixei que passasse, iria passar. Porque independentemente de tudo, eu conhecia-te e tu não a amavas o suficiente para a agarrar por muito tempo. 
Meu dito e meu feito, três meses depois já não a amavas, amavas outra. E sabes essa outra, agora que não te vejo diariamente, vejo-a a ela. E ela ama-te, ama-te tanto quanto eu. Ama-te o suficiente para te fazer feliz. E tu amas-la, isso eu vejo. Não o demonstras, mas amas. Porque eu te conheço e sei!
E eu? Eu conheço os sentimentos que tenho por ti, conheço os desejos que quero realizar só contigo, tenho medo suficiente para não te esquecer e medo em sobra para o fazer. Vivo então no dilema de te querer ou esquecer. Mas eu? Eu amo-te, porra! 

sábado, 5 de abril de 2014

pura ficção! #1

Lembro-me perfeitamente daquele tempo, tu lá estavas pronto para me amarrar a ti e não me deixar ir de qualquer maneira e eu, ingénua e imatura, pronta para cair na tua armadilha.
Tu lá vieste com as tuas falinhas mansas e cheio de amores e olhos brilhantes para mim e eu deixei-me ir, deixei-me levar para um mundo que eu não fazia ideia do que me tornaria.
Passaram-se meses e tu continuavas a dominar-me, fazias de mim o teu troféu que orgulhosamente erguias; sentias-te orgulhoso por me conseguires domar, por me teres na tua mão. E eu burra não percebia. 
As pessoas, essas, tentavam avisar-me do perigo que eu corria ao estar contigo ou deixar-me levar por ti - um ser inconsciente dos seus atos e palavras. Nunca foste opção para as outras e eu não percebia porquê! Afinal, tu, para mim, eras o melhor, aquele que me fazia sorrir de orelha a orelha... 
E os anos foram passando, os dias foram-se tornando mais negros para mim, já não havia alegria naquela relação, era monótona, igual, repetitiva. Tu tinhas tornado a vida a preto e branco. Não a tua, a minha. A tua continuava tão alegre como sempre - as outras vinham e iam, as festas eram rotina, as bebedeiras um motivo para me traíres... Fazias tudo quanto querias e ainda mo dizias, erguendo tudo isso, novamente, como troféus. E eu só queria que tudo parasse. 
As pessoas, essas, já se tinham ido. Perceberam que eu já não podia ser reerguida, que me tinha afundado de tal forma, que não havia maneira de sair dali, daquele mundo.
Mas o dia chegou, eu percebi que só não saía do sótão escuro e sombrio onde estava enfiada, se não quisesse. Sabia que eu conseguiria levantar-me sozinha e fazer-te pagar por todos os teus erros, por tudo aquilo que me fizeste sofrer, por todas as cicatrizes que tinha no corpo, na alma, na mente. Irias sofrer muito mais do que eu, muito mais do que alguma vez eu iria fazer sofrer alguém...
Tu mais uma vez percebeste a minha intenção e tentaste dominar-me, fazer-me parar e recuar. Mas era tarde demais, porque se eu sabia do que tu eras capaz, tu não fazias ideia daquilo que eu conseguiria fazer.
Chegou a derradeira noite, com o corpo a tremer, as pernas bambas e o coração aos pulos, eu iria fazê-lo. Nas veias não me circulava sangue, era puro nojo. Nojo daquilo que eu iria fazer, nojo da forma como o tinha de fazer e nojo de mim mesma por me arriscar tanto.
É exatamente isso que estás a pensar, eu tinha planeado tudo, estava pronta a entregar-me a ti com um único objetivo - fazer-te amar-me uma única vez na vida! Fiz-lo com o corpo suando repugnância, com a alma impura e suja. Mas fiz-lo, prometendo a mim mesma que isto seria o fim de anos de sofrimento, de angústia, de dor, de traições e mentiras.
No fim, deixei-te adormecer, deixei-te acreditar que aquele tinha sido a minha melhor noite; sabendo que para ti, era só mais uma que tu fazias feliz por uma noite. Mas deixei-te adormecer acreditando na minha inocência. Olhei para ti enquanto dormias e decidi que estava na hora. Saí para a rua, segui o caminho que estava marcado há muito na minha mente. Não parei de chorar, não podia fazê-lo, fazia parte de tudo o que estava comprometida a fazer para que pudesses parar. Percorria os caminhos, às duas horas da noite, de camisa de dormir, sem roupa interior, chorando como nunca. 
E finalmente cheguei a onde queria. Entrei e as pessoas olhavam-me com pena, com medo, com insegurança, com preocupação. Cheguei-me ao balcão e simplesmente disse:
- Ele violou-me!
Depois desmaiei. Não estava nos planos, não fazia parte do que estava há tanto tempo a ser pensado, mas aconteceu. 
Quando acordei já tinham feito todos os exames e a polícia, uma mulher, olhava-me com compreensão. Depois desse tempo todo, eu sabia que pouco faltava para tu sofresses...
Os tribunais, os advogados, os juízes, os meus pais, os teus, as outras... Todos me passaram à frente, mas só uma pessoa eu conseguia fixar na minha mente: tu! Queria destruir-te, queria que sentisses tanto arrependimento como aquele que eu provavelmente sinto por te ter conhecido, queria saber de ti e dizerem-me que querias morrer. Queria que o sentisses!
A sentença saiu «o réu terá de cumprir 18 anos de prisão e fica sujeito a pagar uma multa de 15 mil euros à vítima», como se eu quisesse o teu dinheiro para alguma coisa... Estavas preso e era isso que eu queria.

Passaram-se dois anos e gostava de saber como estás, como reagiste à minha visita esta tarde, como te sentes ao saber que tudo o que pensavas ser o teu futuro se desmoronou? Queria saber tudo isso e que à tarde não tivesses tido vergonha de me olhar nos olhos. Mas sabes que mais? É tarde demais para tudo isso. 
Lembraste quando eu te disse que tu não imaginavas sequer aquilo que eu era capaz de fazer? Eu estava a falar a sério. Tu não imaginas, nem mesmo agora, depois de estares aí dentro, aquilo que eu sou capaz de fazer.
Depois disto, posso ser presa, tal como tu. Mas pelo menos sei que a seguir a mim, não tiveste mais ninguém. E que a seguir a premir o gatilho, o amor da minha vida estará morto.